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Desenho

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,

e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam


Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,

onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.
Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,

e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,

que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!

E o papagaio como ficava sonolento!

O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos

fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.


Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,

e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes

moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia.
Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.

E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos

e palavras de amor em minha roupa escritas.


Minha vida começa num vergel colorido,

por onde as noites eram só de luar e estrelas.

Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras

a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

Cecília Meireles