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Em cada momento,
A cada tempo,
Ele escorre e jé é outro.
Nunca o mesmo.


O vento vem trazer-me a resposta
Que não foi dita.
O silêncio ainda preserva as estranhas
Palavras indescritíveis.


Ao espasmo do meu esmo
Decidi abrir-me.


Ao tocar
E o imaginável ver,
O estranho, presente estava.
Sim. Ali. Grande e forte.


Seus olhos incógnitos em mim,
Sua boca um riso ignoto
E todo o teu ser
Eu senti


Fitei-o um instante.
Instante que o vento não levou,
Que não escorreu.
Perdurou.


E ali suspenso,
Vasto,
Intenso e profundo
O sentimento ficou
E por muito tempo durou...


Estremecíamos.
Osculo.
De nós,
Nenhum asco.





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E dormir teu sono
e sonhar com o vento
que te leva um beijo meu.
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Fernanda Mena, 23.2.04, Reportagem Local.
Vera Malaguti- Para historiadora, paranóia da segurança e controle social são heranças da sociedade escravocrata

 No Brasil, exalta-se o talento negro na passarela do samba. Já fora da avenida, qualquer atitude de um negro parece ser considerada suspeita, quase ameaçadora, a ponto de causar o assassinato do dentista Flávio Ferreira Sant'Ana, 28, morto por policiais militares em São Paulo, no último dia 3, depois de supostamente reconhecido pela vítima de um assalto. Ou a expulsão de um shopping, no Rio de Janeiro, de Luciano Ferreira da Silva, 18, afilhado do compositor Caetano Veloso, no dia 14.
A partir da análise de episódios como esses e como os arrastões nas praias da zona sul do Rio, em 1993, a historiadora Vera Malaguti, 49, pesquisadora da Universidade Candido Mendes e secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia, fez um estudo histórico sobre as raízes da cultura do medo nas cidades brasileiras.
O resultado está no livro "O Medo na Cidade do Rio de Janeiro -Dois Tempos de uma História" (ed. Revan), que analisa, desde os tempos da escravidão, a prática social alimentada pelas elites de delimitar o inimigo como o outro -no caso brasileiro, o negro e o pobre- e clamar por estratégias duras de controle e punição.
A estética da escravidão herdada pela sociedade contemporânea, segundo a pesquisadora, é muito presente na atual "paranóia da segurança" vivida no país.
"Se antes a fantasia era o quilombo, hoje o medo é da periferia e do morro", analisa. "As elites têm medo, mas é a população da periferia e da favela que vive o terror e a barbárie no dia-a-dia."

Folha - Como a sra. avalia a ameaça, em um shopping, ao afilhado de Caetano Veloso e a morte do dentista Flávio Ferreira Sant'Ana?
Vera Malaguti - Esses são dois dos milhares de casos que acontecem. No meu livro anterior, "Difíceis Ganhos Fáceis - Drogas e Juventude Pobre no Rio de Janeiro", tratei da questão da "atitude suspeita", que é uma abordagem policial comum, em que a população negra em geral é sempre suspeita.
Fiz um estudo de tipologia de processos de adolescentes envolvidos em atos infracionais relativos a drogas e separei todos em que se falava de atitude suspeita. Jovens negros e pobres apareciam detidos em "atitude suspeita" nas pedras do Arpoador, num táxi no Flamengo, jogando bola na praia. Ou seja, tudo aquilo que não é atitude suspeita vira atitude suspeita por uma questão histórica ontológica. O sujeito é suspeito por si mesmo. Por ser negro e pobre.

Folha - Como a sra. relaciona esse fenômeno com a escravidão?
Malaguti - O que ficou para nós hoje é a hierarquia estética da escravidão, que é muito consagrada e foi se acentuando com o neoliberalismo, que quebrou pontes como a escola pública para todos e aumentou a apartação.
Essa estrutura de periferia do neoliberalismo desvaloriza também a categoria do trabalhador. Os lugares vão ficando muito mais hierarquizados. E o medo ajuda a manter essa ordem de desigualdade sem questioná-la.

Folha - Casos como a morte do dentista e a ameaça ao afilhado de Caetano ocorrem por conta dessa herança?
Malaguti - Com certeza. No caso do dentista, se ele não fosse inocente, mas suspeito do assalto, isso bastaria para justificar a abordagem policial feita na ocasião.
Estatisticamente, ele seria um morto ignorado, como acontece no Rio quando a polícia sobe os morros, mata três ou quatro e diz que eram todos traficantes. De qualquer forma, isso não justifica a "pena de morte" aplicada no local, ou seja, a abordagem de atirar para matar antes de mais nada.
Essa abordagem é uma forma de homogeneizar toda a população favelada e negra. No caso do dentista, não se trata de culpar só a polícia. A vítima do assalto havia reconhecido o rapaz como o bandido. Mas, e se fosse realmente o assaltante? Estaria certo matá-lo?
No caso do shopping, o que houve de errado na abordagem daquele segurança foi o fato de o garoto ter uma aba de poder que ele absolutamente não imaginava.
Eu tenho pena é do segurança, que faz isso todo dia, foi treinado para afastar a população pobre do shopping e cometeu um "engano". Essa é a barbárie cotidiana que normalmente vitimiza quem não tem poder para questionar a ordem.
O que se percebe é que, na saída do regime militar, a sociedade era muito mais libertária. Hoje somos muito mais punitivos. Naquela época, todos estávamos convencidos de que esse tipo de comportamento era arbítrio. Hoje todos estão convencidos de que isso é necessário.
Esse é o grande paradoxo da democracia e do neoliberalismo à brasileira. Esses discursos do medo nos transformaram numa elite muito mais exterminadora. Na saída do regime militar, a gente questionava o arbítrio policial e, hoje em dia, ele é aplaudido.

Folha - Em que momento da história do Brasil acontece o encontro entre repressão e segregação?
Malaguti - No início do século 19, com o direito penal da escravidão. Justamente nessa conjuntura de 1830, logo após a Independência. Nessa época, o país deixou de ser regido pelas ordenações e, em 1824, tivemos a primeira Constituição. Depois, em 1830, tivemos o primeiro Código Penal.
E é isso o que instaura o que eu chamo de "ciladania" -conceito de cidadania que entra no Brasil e, ao mesmo tempo, desqualifica todo mundo que não é branco, do sexo masculino e proprietário.
Quando o liberalismo e seus diplomas legais entram no Brasil, você tem o tempo todo a desqualificação jurídica do escravo, que aparece como "coisa" perante o ordenamento político da vida privada e como "pessoa" apenas perante o direito penal.
E o neoliberalismo comporta esse legado escravocrata porque o tempo todo nós tivemos uma subcidadania. E isso quer dizer que, na verdade, nunca houve cidadania, porque este é um conceito que está naquela categoria na qual ou todo mundo é ou ninguém é. E esse conceito já entra no Brasil com ambigüidade.

Folha - Como essa ambigüidade se traduz hoje?
Malaguti - Toda a nossa visão perante a lei e a legalidade está impregnada dessa herança ambígua perante o conceito de cidadania. E, com o neoliberalismo, o que houve foi a substituição do estado previdenciário pelo estado penal. Loïc Wacquant, um sociólogo francês que trabalha em Berkeley [autor do prefácio do novo livro de Malaguti], fez um estudo nos EUA que apontou como a população desassistida pelo governo Reagan era deslocada para o atendimento penal.
O mesmo acontece no Brasil. As taxas de encarceramento por aqui subiram vertiginosamente com o neoliberalismo. São Paulo é um caso emblemático, e hoje tem mais de 100 mil presos. O mais impressionante é que as pessoas estão convencidas de que a pena é reguladora de conflitos sociais.
Durante a Revolta dos Malês, ninguém via os negros protagonistas daquela ação como heróis libertários, mas como bandidos. Eles foram criminalizados e seus advogados foram hostilizados porque questionaram sem querer a ordem escravocrata.

Folha - Em seu livro, a sra. aponta a Revolta dos Malês como um primeiro grande exemplo de disseminação do medo e da demonização dos negros e dos pobres. Quando se inicia no Brasil a prática do uso da violência e do discurso do medo como meio de controle social?
Malaguti - O medo do outro existe desde o Brasil Colônia, que exterminou os índios e os escravos. Mas, com a Independência do Brasil, em 1822, o país foi sacudido por desejos de nação. A idéia de nação -a grande questão brasileira do século 19- está ligada à idéia de um território e de um povo. Os ecos da Revolução Francesa, da cidadania e da República sacudiram o Brasil. Desde os Farrapos no Rio Grande do Sul até a Cabanagem no Pará, passando pela Revolta dos Malês, na Bahia.
Esse último caso é muito interessante porque, como diz João José Reis [historiador e professor da Universidade Federal da Bahia, especialista em escravidão], que tem um lindíssimo livro sobre o tema, eles representavam o outro porque eram negros, muçulmanos e liam e escreviam enquanto as elites eram analfabetas.
Foi uma revolta dizimada rapidamente, mas que impregnou na sociedade brasileira o medo da explosão, da insurreição. E isso perdurou durante muito tempo. A onda de pânico foi enorme, os negros eram supliciados em público como resposta ao clamor das elites por punição.

Folha - Essas ondas de pânico estão ligadas à ameaça às elites?
Malaguti - Há um trecho de "A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro de 1808 a 1850", livro da historiadora americana Mary Karasch, em que um viajante no Brasil diz ter ficado abalado ao ver "escravos agonizantes nas lixeiras".
Vou usar uma expressão comum no Rio, que é a vala. Aqui a gente convive com corpos de jovens negros jogados na vala, na caçamba. E isso é naturalizado. Só quando há um engano ou quando o morto é alguém da classe média a polícia é questionada.

Folha - O medo seria, então, um disciplinador social para as elites?
Malaguti - O medo é incentivado, ele interessa. Para se manter uma ordem muito injusta, só se disciplina por meio do terror. Mas quem é que está no terror? As elites têm medo, mas é a população da periferia, da favela que vive esse terror e essa barbárie no dia-a-dia. É a maneira de disciplinar no neoliberalismo. Não há emprego, não há políticas sociais, de saúde, de educação e de cultura. E aí entra o terror como parte do arsenal de estratégias do neoliberalismo.
Nos momentos eleitorais, muita gente cai por conta disso. Da direita à esquerda punitiva, ninguém tem coragem de enfrentar essa questão. Há diferença entre direita e esquerda quanto a posições econômicas, mas, na parte penal, quase todo mundo fala a mesma coisa. Quem tentar esvaziar o medo é criminalizado.

Folha - Qual é a conseqüência prática desses discursos duros sobre violência e segurança?
Malaguti - É a punição além do crime. É o controle social. Veja o caso das medidas de segurança no fim do século 19. Por exemplo, a vadiagem: o sujeito não cometeu nenhum crime, mas é preso antes disso. Como o caso da tal "atitude suspeita". Ou, como no caso do dentista, você mata antes de descobrir se o sujeito é ou não é criminoso.
Isso é também herança escravagista do século 19, quando havia o controle da movimentação dos negros, que só podiam se deslocar com um documento assinado pelo senhor, no qual estivesse escrito para onde iria, com quem falaria e quando voltaria.
A população jovem de periferia vive a permanência disso na forma como são abordados pela polícia. Um grupo de meninos da periferia se deslocando pela cidade leva dura da polícia toda hora.

Folha - No Brasil, a polícia foi criada com a lógica da punição racial?
Malaguti - Quando a polícia brasileira foi criada, sua função primordial era controlar escravos, reprimir quilombos e ajuntamentos e açoitar escravos em locais públicos. No primeiro presídio, 95% dos presos eram escravos.

Folha - Essa penalização racial e de classe está refletida, portanto, no comportamento da polícia?
Malaguti - De uma certa forma, a polícia é uma vítima histórica desse pensamento penal porque é induzida ao erro por uma pressão feita pelo que chamo de "discursos que matam": ondas contra a criminalidade, que brutalizam a juventude e a polícia, que é jogada a um tipo de ação violenta por uma opinião pública que está sempre clamando e achando que, quanto mais se prende, melhor.

Folha de São Paulo (23. Fev.2004)

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E agora estava assim... Dera para rastejar os chinelos pela casa, com passos preguiçosos antes mesmo do sol principiar a aparecer no horizonte.
Sentava-se na varanda a divagar, enquanto lentamente o sol nascia, alimentando seus pensamentos, iluminando a sua face, suscitando brilho no olhar. A brisa daquela manhã sempre lhe seria diferente das outras brisas, que vinham somente desvanecer as lembranças do amado, que partira sem o lisonjeio de uma despedida. Aquela misteriosa brisa, gélida e mansa, que impregnava-lhe o corpo enervado de menina, viera cicatrizar as múltiplas chagas   supuradas... Era curativo sem dor.
Há muito que o desamor a sucumbia. Estava enfermiça, taciturna, ofuscada. Deitada na cama, carecia-lhe forças pra se levantar. Mal sabia ele que era seu mal-necessário. A sua partida fora a das piores. Não houve choro nem súplica. Seus gritos tumultuosos estavam imersos em silêncio perturbador, misterioso.
Agora ali na varanda, fascinava-se com as cicatrizes estampadas na pele. O contentamento a invadiu e a fez vestir-se do céu; desfrutar dos raios mornos do sol; acenar à passarada que rabiscara o céu de gritos; ver o desabrochar das margaridas e seus beija-flores. Toda esse movimento incessante da natureza lhe era profuso. Orvalhou-se. Quedou-se no chão com a alegria de toda a dança. Acariciou em seu braço as estampas que o mal deixara. Reverberou-se luz e  vontade insaciável de viver. Não haviam mais dores.                   
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"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."
 (Oscar Wilde) 
"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido 
todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os 
meus amigos."
(Vinícius de Moraes)